Datafolha: Maioria não conhece projeto de ocupação de favelas no RJ, mas o apoia

A maioria dos cariocas não conhece o principal programa de segurança pública do governador Cláudio Castro (PL), mas ainda assim o apoia, indica pesquisa do Datafolha. É o chamado Cidade Integrada, que prometeu ocupar as favelas do Jacarezinho e da Muzema.

O levantamento indica que 59% dos moradores da cidade do Rio de Janeiro nunca ouviram falar do projeto e, entre os que sabem da sua existência, apenas 6% se consideram bem informados. Apesar disso, 59% se dizem a favor da iniciativa e 11%, contra —um terço é indiferente ou não soube responder.


Pré-candidato à reeleição, Castro deu o pontapé inicial do Cidade Integrada em janeiro, quando mais de mil policiais entraram sem resistência nas duas comunidades. A primeira fica na zona norte da cidade e é comandada pelo tráfico de drogas, a segunda fica na zona oeste e é dominada por uma milícia.

A ideia é retomar esses territórios e abrir caminho para serviços públicos, à semelhança das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), hoje decadentes. Ambos servem como uma espécie de projeto-piloto, com investimento previsto de R$ 500 milhões.

O Datafolha aponta que o apoio ao programa é ligeiramente maior entre negros, menos escolarizados e moradores da zona norte, ainda que as diferenças estejam dentro da margem de erro, de três pontos percentuais. Foram entrevistados 644 moradores do município de 5 a 7 de abril.

“Talvez a alta aprovação tenha a ver com a memória das pessoas sobre as UPPs, que até o momento de falência reduziu indicadores e eram muito bem avaliadas pela população”, diz o sociólogo Daniel Hirata, coordenador do Geni-UFF (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense).

“Me parece o resultado de uma carência por qualquer ação de segurança pública, principalmente entre os que mais sofrem com a falta dela. Mesmo não conhecendo, as pessoas aprovam”, acrescenta o coronel da reserva Robson Rodrigues, ex-comandante da PM e pesquisador da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).


Já para o advogado Joel Luiz Costa, morador do Jacarezinho, coordenador do Observatório Cidade Integrada e coordenador do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN), “a leitura da sociedade é de que a única solução para a favela é a polícia”.

A pesquisa indica que a tentativa de associar o Cidade Integrada ao nome de Castro, que faz divulgações constantes das ações, pode estar dando certo: o apoio ao projeto é maior entre seus eleitores (71% são a favor) e entre os que acham sua gestão boa ou ótima (77%).

Procurado pela reportagem, o governo destacou ações já realizadas, como a concessão de crédito para mais de 7.000 microempreendedores e o cadastro de 900 moradores para regularização fundiária. A PM também afirmou que prendeu 123 suspeitos e que os roubos de rua na região diminuíram 34%.

Para Joel, do Observatório, porém, “são políticas muito rasas para o estardalhaço que foi feito e, sobretudo, para o impacto causado na vida de 50 mil pessoas”. Ele critica o comércio vazio, a invasão de casas por policiais e a promessa de um conselho comunitário que não foi formado.

Hirata, do Geni-UFF, diz que, na Muzema, “está previsto o vale gás para evitar o domínio da milícia nesse setor, mas os relatos aos pesquisadores do grupo apontam que os criminosos estão aumentando os valores de outras extorsões”.

88% APROVAM O SEGURANÇA PRESENTE
O Datafolha também mediu a impressão do carioca sobre outro projeto no estado, o chamado Segurança Presente, de policiamento de proximidade. A iniciativa é bem mais conhecida (por 79%, sendo que 33% se dizem bem informados) e largamente apoiada (88% são a favor e apenas 6%, contra).

Na prática, são duplas ou trios —formados por policiais militares de folga, agentes civis egressos das Forças Armadas e assistentes sociais— que patrulham determinadas áreas usando um colete colorido, para promover o ordenamento urbano, coibir roubos e acolher moradores de rua.

Ele surgiu em 2014, financiado por comerciantes do centro da cidade, num contexto de grave crise financeira do RJ e vácuo do Estado. Oito anos depois, se expandiu para 33 localidades, incluindo cidades da Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo, e agora é custeado unicamente pelo governo.


Um terço dos moradores da capital diz ter equipes do programa em seu bairro, mas a pesquisa confirma que elas estão concentradas nas regiões com mais recursos. Essa porcentagem é de 89% na zona sul, 68% no centro, 29% na zona oeste e 22% na norte.

Enquanto 82% das pessoas com renda familiar superior a dez salários mínimos veem o Segurança Presente em volta de casa, apenas 22% dos que recebem abaixo de dois salários contam com o serviço.

Para o ex-comandante da PM Robson Rodrigues, que estuda o programa há quatro anos, há aspectos positivos como a motivação dos agentes e a humanização do trabalho policial, mas a iniciativa representa uma contradição: “Eles são pagos para fazer o que a polícia não está fazendo”, afirma.

Segundo ele, o programa se aproveita da sensação de medo da população. “Há um nível de satisfação porque ele resolve o problema de forma superficial. As pessoas não entendem que é algo paliativo.”

Outras rodadas da pesquisa Datafolha demonstram isso. A falta de policiamento é o principal problema da segurança pública para os fluminenses (16% disseram isso espontaneamente). O temor de assaltos na rua atinge 87%, e de assalto no semáforo, 82%.​

Matéria publicada originalmente pelo jornal Folha de São Paulo. Imagem: Tércio Teixeira – 26.jan.22 / Folhapress


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