{"id":11803,"date":"2022-08-11T03:32:48","date_gmt":"2022-08-11T03:32:48","guid":{"rendered":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/?p=11803"},"modified":"2022-08-11T03:34:20","modified_gmt":"2022-08-11T03:34:20","slug":"juizes-brancos-presos-negros-o-que-e-encarceramento-em-massa-e-racista-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/2022\/08\/11\/juizes-brancos-presos-negros-o-que-e-encarceramento-em-massa-e-racista-2\/","title":{"rendered":"Ju\u00edzes brancos, presos negros: o que \u00e9 encarceramento em massa? \u00c9 racista?"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil s\u00f3 fica atr\u00e1s de China e Estados Unidos no ranking de n\u00famero absoluto de pessoas encarceradas no mundo. Os dados s\u00e3o de 2021 e foram divulgados pelo Monitor da Viol\u00eancia, grupo de estudo comandado pelo N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da USP e pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>Para piorar, a j\u00e1 dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do Brasil, houve uma piora ap\u00f3s a pandemia do novo coronav\u00edrus. De acordo com o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, divulgado em junho deste ano, 820.689 vidas tiveram a liberdade cerceada pela Justi\u00e7a, neste per\u00edodo, um aumento de 8,15% em rela\u00e7\u00e3o a 2020.<\/p>\n<p>O alto n\u00famero de cidad\u00e3os presos pelo Estado tem um nome: encarceramento em massa. Ele nos revela problemas cr\u00f4nicos da sociedade brasileira, como um sistema de justi\u00e7a criminal falho e, principalmente, estruturalmente racista.<\/p>\n<h3><strong>O que \u00e9 encarceramento em massa?<\/strong><\/h3>\n<p>&#8220;Encarceramento em massa \u00e9 o nome de um processo que faz com que muitas pessoas sejam aprisionadas, muitas vezes por crimes sem viol\u00eancia em pres\u00eddios e pris\u00f5es mundo afora&#8221;, analisa Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudo de Seguran\u00e7a e Cidadania. &#8220;Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses que est\u00e3o no topo do ranking de popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no mundo, a maioria das pessoas presas \u00e9 negra.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;No Brasil, ainda tem um problema adicional: a maioria delas s\u00e3o presas sem condena\u00e7\u00e3o, ou seja, est\u00e3o presas temporariamente e seguem \u00e0s vezes anos a fio sem liberdade&#8221;, complementa Nunes. Uma pesquisa realizada pela Iniciativa Negra por uma Nova Pol\u00edtica sobre Drogas em 2021 mostrou que 34,7% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria brasileira n\u00e3o foi julgada.<\/p>\n<h3><strong>O que \u00e9 encarceramento em massa?<\/strong><\/h3>\n<p>No livro &#8220;Encarceramento em massa&#8221; (Editora Janda\u00edra, 2019), a pesquisadora e escritora Juliana Borges descreve o problema a partir do ponto de vista hist\u00f3rico, associando-o diretamente ao racismo. De acordo com ela, h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o entre as pris\u00f5es em massa da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil e o antigo sistema escravocrata.<\/p>\n<p>&#8220;Abolida a escravid\u00e3o no pa\u00eds, como pr\u00e1tica legalizada de hierarquiza\u00e7\u00e3o racial e social, vemos outros mecanismos e aparatos constituindo-se e reorganizando, ou at\u00e9 mesmo sendo fundados, caso que veremos da institui\u00e7\u00e3o criminal, como forma de garantir controle social&#8221;, escreve a pesquisadora.<\/p>\n<p>Borges lembra que a primeira Lei Criminal no Brasil foi institu\u00edda em 1830, quando a escravid\u00e3o era vigente no Brasil. Desde aquela \u00e9poca, segundo a estudiosa, negros recebem um tratamento diferente da lei. Naqueles anos de Brasil Imp\u00e9rio, eles eram tratados, nas palavras da escritora, como &#8220;coisas&#8221;. Pertencentes aos brancos, eles costumavam sofrer puni\u00e7\u00f5es n\u00e3o da Justi\u00e7a, mas dos seus donos, em \u00e2mbito privado.<\/p>\n<p>O livro mostra que o tratamento diferenciado se manteve ap\u00f3s mesmo Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura, em 1888. &#8220;A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura foi inconclusa. A sociedade brasileira, controlada exclusivamente por pessoas brancas \u00e0 \u00e9poca, se organizou para a constru\u00e7\u00e3o de uma estrutura legal que separa os grupos com o objetivo velado de manuten\u00e7\u00e3o de uma ideia de superioridade racial da popula\u00e7\u00e3o branca. A estrutura \u00e9 o sistema de justi\u00e7a criminal&#8221;, explica Joel Luiz Costa, advogado e coordenador executivo do Instituto de Defesa da Popula\u00e7\u00e3o Negra.<\/p>\n<p>Borges descreve o &#8220;encarceramento em massa&#8221; como um sistema que garante o controle social da popula\u00e7\u00e3o, mantendo uma hierarquia racial que coloca os brancos acima dos negros. A an\u00e1lise se sustenta em dados concretos: o Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica mostra que, em 2011, 60,3% da popula\u00e7\u00e3o encarcerada era negra e 36,6% branca; em 2021, a propor\u00e7\u00e3o foi para 67,5% de presos negros para 29,0% de brancos.<\/p>\n<h3><strong>Qual o impacto da Lei de Drogas no encarceramento em massa?<\/strong><\/h3>\n<p>Estudiosos de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o hesitam ao dizer que a Lei de Drogas 11.343, aprovada em 2006 pelo governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, agravou o problema do encarceramento em massa no Brasil. Tida na \u00e9poca como progressista pela tentativa de diferenciar usu\u00e1rios dos traficantes, a lei acabou sendo usada como instrumento racista por for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O problema da lei est\u00e1 no crit\u00e9rio subjetivo das pris\u00f5es. Diz o artigo 28: &#8220;para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atender\u00e1 \u00e0 natureza e \u00e0 quantidade da subst\u00e2ncia apreendida, ao local e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es em que se desenvolveu a a\u00e7\u00e3o, \u00e0s circunst\u00e2ncias sociais e pessoais, bem como \u00e0 conduta e aos antecedente&#8221;. Ou seja, na pr\u00e1tica, os policiais e ju\u00edzes definem quem \u00e9 usu\u00e1rio e traficante.<\/p>\n<p>&#8220;Os integrantes [do sistema de justi\u00e7a criminal] n\u00e3o refletem a popula\u00e7\u00e3o brasileira: s\u00e3o majoritariamente brancos e homens. Os casos de pessoas que s\u00e3o colocadas em pris\u00e3o por roubarem Miojo ou peda\u00e7os de carne ilustram bem o problema&#8221;, complementa Pablo Nunes.<\/p>\n<p>Em 2021, o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica informou que, desde a aprova\u00e7\u00e3o da lei 11.343, a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria aumentou em 254% no Brasil &#8211; muito por causa dos crimes relacionados a drogas, que apresentaram um crescimento de 156%. Para Joel Luiz Costa, as pris\u00f5es s\u00e3o diretamente influenciadas pelo racismo:<\/p>\n<p>&#8220;Quem \u00e9 traficante neste pa\u00eds? O traficante tem uma figura exata no imagin\u00e1rio das pessoas: ele tem cor, classe, CEP e vestu\u00e1rio. Ele \u00e9 um jovem negro, perif\u00e9rico, de 20 anos, com roupa esporte e bon\u00e9. Esse \u00e9 o bandido para a popula\u00e7\u00e3o brasileira.&#8221;, analisa.<\/p>\n<h3><strong>Existem solu\u00e7\u00f5es para o encarceramento em massa?<\/strong><\/h3>\n<p>O Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica abordou tamb\u00e9m uma quest\u00e3o chave para entender o problema do encarceramento em massa: a falta de oportunidades para os egressos. Na l\u00f3gica brasileira, o investimento em pris\u00f5es \u00e9 tradicionalmente muito maior que o dinheiro gasto na recupera\u00e7\u00e3o dos detentos.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 o estado de S\u00e3o Paulo. Uns dos poucos a oferecer programa de apoio a egressos, os paulistas destinam R$ 1 aos antigos presidi\u00e1rios para cada R$ 504 gastos com penitenci\u00e1rias e R$ 1.795 com pol\u00edcias.<\/p>\n<p>Para Joel Luiz Costa, a popula\u00e7\u00e3o negra tamb\u00e9m \u00e9 a que mais sofre ap\u00f3s o c\u00e1rcere. Para ele, o pa\u00eds n\u00e3o ir\u00e1 resolver o problema enquanto o povo negro seguir exclu\u00eddo dos espa\u00e7os de poder, como os cargos de ci\u00eancia, empresariado, da academia e as cadeiras do Legislativo e Executivo.<\/p>\n<p>&#8220;Os negros ainda enfrentam um terceiro problema, al\u00e9m do c\u00e1rcere e das dificuldades como egressos: a criminaliza\u00e7\u00e3o indireta. \u00c9 o caso do menino negro que est\u00e1 passando na rua e faz algu\u00e9m fechar o vidro do carro ou mudar a bolsa de bra\u00e7o. Tudo isso \u00e9 consequ\u00eancia desse sistema punitivo que, quando n\u00e3o encarcera, exclui ou estigmatiza os negros&#8221;, finaliza Pinheiro.<\/p>\n<p><small>Mat\u00e9ria publicada originalmente pelo <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/ecoa\/ultimas-noticias\/2022\/07\/30\/encarceramento-em-massa-o-que-e-e-por-que-atinge-a-populacao-negra.htm\">site ECOA Uol<\/a>. Imagem: Getty Images\/EyeEm<\/small><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil s\u00f3 fica atr\u00e1s de China e Estados Unidos no ranking de n\u00famero absoluto de pessoas encarceradas no mundo. Os dados s\u00e3o de 2021 e foram divulgados pelo Monitor da Viol\u00eancia, grupo de estudo comandado pelo N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da USP e pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Para piorar, a j\u00e1 dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do Brasil, houve uma piora ap\u00f3s a pandemia do novo coronav\u00edrus. De acordo com o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, divulgado em junho deste ano, 820.689 vidas tiveram a liberdade cerceada pela Justi\u00e7a, neste per\u00edodo, um aumento de 8,15% em rela\u00e7\u00e3o a 2020. O alto n\u00famero de cidad\u00e3os presos pelo Estado tem um nome: encarceramento em massa. Ele nos revela problemas cr\u00f4nicos da sociedade brasileira, como um sistema de justi\u00e7a criminal falho e, principalmente, estruturalmente racista. O que \u00e9 encarceramento em massa? &#8220;Encarceramento em massa \u00e9 o nome de um processo que faz com que muitas pessoas sejam aprisionadas, muitas vezes por crimes sem viol\u00eancia em pres\u00eddios e pris\u00f5es mundo afora&#8221;, analisa Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudo de Seguran\u00e7a e Cidadania. &#8220;Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses que est\u00e3o no topo do ranking de popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no mundo, a maioria das pessoas presas \u00e9 negra.&#8221; &#8220;No Brasil, ainda tem um problema adicional: a maioria delas s\u00e3o presas sem condena\u00e7\u00e3o, ou seja, est\u00e3o presas temporariamente e seguem \u00e0s vezes anos a fio sem liberdade&#8221;, complementa Nunes. Uma pesquisa realizada pela Iniciativa Negra por uma Nova Pol\u00edtica sobre Drogas em 2021 mostrou que 34,7% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria brasileira n\u00e3o foi julgada. O que \u00e9 encarceramento em massa? No livro &#8220;Encarceramento em massa&#8221; (Editora Janda\u00edra, 2019), a pesquisadora e escritora Juliana Borges descreve o problema a partir do ponto de vista hist\u00f3rico, associando-o diretamente ao racismo. De acordo&#8230; <\/p>\n<p><a class=\"readmore\" href=\"https:\/\/institutodpn.org\/website\/2022\/08\/11\/juizes-brancos-presos-negros-o-que-e-encarceramento-em-massa-e-racista-2\/\">Continuar lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":11724,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false},"categories":[17],"tags":[24],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11803"}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11803"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11803\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11804,"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11803\/revisions\/11804"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11724"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11803"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}