{"id":11703,"date":"2022-03-08T22:39:00","date_gmt":"2022-03-08T22:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/?p=11703"},"modified":"2022-09-21T19:38:14","modified_gmt":"2022-09-21T19:38:14","slug":"videos-no-youtube-dao-dicas-de-como-afinar-o-nariz-especialistas-apontam-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutodpn.org\/website\/2022\/03\/08\/videos-no-youtube-dao-dicas-de-como-afinar-o-nariz-especialistas-apontam-racismo\/","title":{"rendered":"V\u00eddeos no Youtube d\u00e3o dicas de como \u2018afinar\u2019 o nariz; especialistas apontam racismo"},"content":{"rendered":"\n<p>No Brasil, o processo de coloniza\u00e7\u00e3o foi o grande respons\u00e1vel por configurar um imagin\u00e1rio coletivo em que os tra\u00e7os negros eram menosprezados e usados at\u00e9 como justificativa para a escraviza\u00e7\u00e3o. A partir do come\u00e7o do s\u00e9culo 20, estrat\u00e9gias de embranquecimento foram uma pol\u00edtica de Estado apoiadas por pseudoci\u00eancias, como a eugenia, que visava \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da negritude.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas desse processo de tentativa de embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira se mostram presentes ainda hoje. S\u00e3o v\u00e1rios os exemplos de filtros, dicas e interven\u00e7\u00f5es, encontrados na internet, que &#8216;suavizam&#8217; caracter\u00edsticas f\u00edsicas que fujam do par\u00e2metro euroc\u00eantrico de beleza. Isso \u00e9 inclusive revelado em buscas pela internet e no Youtube, principalmente, onde n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar dicas e sugest\u00f5es de como afinar o nariz, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem diversos v\u00eddeos com milhares de visualiza\u00e7\u00f5es e centenas de coment\u00e1rios em que t\u00e9cnicas para diminuir o formato das narinas sem cirurgias s\u00e3o ensinadas. Segundo especialistas, a exist\u00eancia desse tipo de conte\u00fado \u00e9 o reflexo atual de uma sociedade que ainda considera as caracter\u00edsticas fenot\u00edpicas negras feias e refor\u00e7a o branqueamento desses tra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as t\u00e9cnicas ensinadas, para al\u00e9m da maquiagem, h\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o de pregador de roupa ou de gelo diretamente no nariz. Em muitos v\u00eddeos encontrados na plataforma, as pessoas testam uma ferramenta chamada \u2018Nose Up\u2019, que pode se assemelhar a um pregador de roupas e ser encontrada at\u00e9 por R$5 em sites de e-commerce.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos coment\u00e1rios dos v\u00eddeos, \u00e9 poss\u00edvel ler relatos que apontam como o nariz mais largo \u00e9 visto com preconceito dentro da fam\u00edlia e coment\u00e1rios depreciativos para as pessoas que tem essas caracter\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Fayda Belo, advogada criminalista e especialista em crimes de g\u00eanero, direito antidiscriminat\u00f3rio e feminic\u00eddio, para apontar crime de racismo nesses conte\u00fados, seria necess\u00e1rio que houvesse um insulto relacionando diretamente \u00e0s caracter\u00edsticas que se deseja mudar com as pessoas negras, o que n\u00e3o ocorre nos v\u00eddeos analisados.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o que acontece, segundo ela, \u00e9 que quase sempre as atitudes racistas s\u00e3o veladas e ditas de forma subliminar, o que muitas vezes impede a tipifica\u00e7\u00e3o do crime. \u201cHistoricamente, quem tem o nariz \u2018mais largo\u2019 s\u00e3o as pessoas pretas. Partindo desse ponto, no momento que \u00e9 fomentado que aquele tipo de nariz n\u00e3o \u00e9 bonito, n\u00e3o \u00e9 socialmente adequado ou n\u00e3o \u00e9 o padr\u00e3o, acaba por criar uma discrimina\u00e7\u00e3o contra os tra\u00e7os das pessoas pretas, j\u00e1 que s\u00e3o elas que possuem esse tipo de nariz\u201d, explica a advogada.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei do Racismo, em seu artigo 20, define como crime resultante do preconceito de ra\u00e7a ou de cor praticar, induzir ou incitar a discriminina\u00e7\u00e3o ou preconceito de ra\u00e7a, cor, etnia, religi\u00e3o ou proced\u00eancia nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Marcela Cardoso, advogada especializada em g\u00eanero e intersec\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a e classe e associada ao Instituto de Defesa da Popula\u00e7\u00e3o Negra (IDPN), v\u00eddeos como os das t\u00e9cnicas para se afinar o nariz podem ser considerados como racismo diante da perspectiva do artigo 20, j\u00e1 que est\u00e1 se incitando socialmente o preconceito em rela\u00e7\u00e3o a pessoas com fen\u00f3tipo caracter\u00edstico da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o s\u00e3o v\u00eddeos que expressamente atribuem caracter\u00edsticas e aspecto pejorativo a pessoas negras, porque n\u00e3o \u00e9 trazido enfim de forma direta. Est\u00e1 sendo trazido na sutileza. Ent\u00e3o pode ser que diante de uma investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sejam considerados como crime, porque n\u00e3o tem essa perspectiva expl\u00edcita\u201d, explica a advogada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refor\u00e7o de um padr\u00e3o \u00fanico de beleza<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A doutoranda em Ci\u00eancias Sociais na PUC e mestre em rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, Luane Bento dos Santos, pontua que nos v\u00eddeos h\u00e1 a promo\u00e7\u00e3o de ideias de beleza baseados em padr\u00f5es de beleza hegem\u00f4nico, ou seja, branco europeu. Segundo Luane, um olhar anal\u00edtico mostra que os v\u00eddeos propagam ideologias racistas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o ideologias apoiadas em teorias racistas de meados do s\u00e9culo XIX no Brasil e fim do s\u00e9culo XVIII no continente europeu. Tivemos v\u00e1rios intelectuais na academia e outras institui\u00e7\u00f5es promovendo discursos e escritos que tentavam comprovar a inferioridade dos povos africanos e afro-brasileiros\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a doutoranda ressalta que n\u00e3o se pode perder de vista que nasce na coloniza\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas a diferencia\u00e7\u00e3o de grupos humanos pela cor da pele e tipo de cabelo. \u201c\u00c9 no evento da col\u00f4nia, do colonialismo, que as caracter\u00edsticas f\u00edsicas de africanos e africanas ser\u00e3o utilizadas para hierarquizar e justificar as desigualdades. Desigualdades que permanecem e se reatualizam at\u00e9 os dias atuais\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores\/as Negros\/as, Cleber Santos Vieira, tamb\u00e9m considera que \u00e9 sempre importante pensar que o processo de manipula\u00e7\u00e3o do corpo para subtrair determinadas caracter\u00edsticas e deix\u00e1-las com outras tem a ver com um padr\u00e3o de beleza que se imp\u00f5e h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe pensar do ponto de vista mais de uma subjetividade, n\u00f3s sabemos que explicitamente falar de nariz de batata, querer que o nariz afine, querer que um prendedor de roupas te deixe mais pr\u00f3ximo de um padr\u00e3o de beleza, tem incutido toda uma perspectiva racista que organiza o pensamento e o comportamento das pessoas\u201d, explica o professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de pessoas brancas que ensinam as t\u00e9cnicas nos v\u00eddeos, \u00e9 poss\u00edvel notar a presen\u00e7a de pessoas negras. \u201cSe essas mulheres v\u00eam de fam\u00edlia negra, de casamentos interraciais, os epis\u00f3dios de racismo do lado branco da fam\u00edlia foram incont\u00e1veis, fora que a todo momento o padr\u00e3o de beleza branco \u00e9 exaltado pela sociedade\u201d, ressalta a doutoranda Luane.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe elas vem de fam\u00edlia negra, podemos pensar no processo de assimila\u00e7\u00e3o racial, apagamento da hist\u00f3ria e cultura negra e africana da forma\u00e7\u00e3o dessas mulheres e um processo intenso de internaliza\u00e7\u00e3o do racismo nas suas subjetividades\u201d, tamb\u00e9m complementa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Responsabilidade das plataformas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cleber Santos Vieira acredita que a responsabilidade das pessoas que criam os v\u00eddeos varia de acordo com quest\u00f5es como o n\u00edvel de alcance desses v\u00eddeos e de seu poder de influ\u00eancia na internet. Em rela\u00e7\u00e3o aos v\u00eddeos serem retirados da plataforma, o professor acredita que eles deveriam ser problematizados antes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSeria importante que as plataformas que hoje assumem uma pauta de diversidade, de valoriza\u00e7\u00e3o, de combate ao racismo e que fala tanto de racismo estrutural, tamb\u00e9m fizessem um trabalho institucional um pouco mais s\u00e9rio, de, ao detectar esse tipo de comportamento, abrisse uma discuss\u00e3o sobre se esse comportamento de fato constr\u00f3i uma sociedade democr\u00e1tica ou se refor\u00e7am uma imposi\u00e7\u00e3o que neutraliza tudo que o pr\u00f3prio discurso institucional prega\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a doutoranda Luane Bento dos Santos acredita que seria um passo importante v\u00eddeos com conte\u00fado racista serem etiquetados para os usu\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO problema de v\u00eddeos como esse nas redes sociais com algoritmos racistas \u00e9 que propagam as ideias de que a beleza para ser alcan\u00e7ada precisa que o sujeito negro ou negra descaracterize seus tra\u00e7os \u00e9tnicos-raciais em prol de um modelo \u00fanico. As pessoas acessam o v\u00eddeo e n\u00e3o s\u00e3o levadas a questionar que aquele conte\u00fado refor\u00e7a as ideias de que brancos s\u00e3o belos por serem brancos(as) e negros s\u00e3o feios por serem negros(as)\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p>A Alma Preta Jornalismo entrou em contato com o canal \u2018Diva aos 50\u2019 para pedir um posicionamento para esta mat\u00e9ria, mas at\u00e9 o fechamento do texto n\u00e3o obteve retorno. Caso responda, o texto ser\u00e1 atualizado. A Ka Martins, do canal \u2018Rosto Sarado\u2019, disse que seu canal \u00e9 focado em rejuvenescimento. Ela explica que os exerc\u00edcios e massagens faciais que compartilha tonificam os m\u00fasculos da face e, partindo deste ponto, ao longo do processo de envelhecimento, \u00e9 comum que a ponta do nariz caia e as laterais fiquem mais largas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntendo que esta quest\u00e3o da padroniza\u00e7\u00e3o da beleza \u00e9 um assunto ser\u00edssimo, mas acredito que a padroniza\u00e7\u00e3o acontece com a cirurgia pl\u00e1stica. Neste caso, a pessoa pode mudar completamente o formato do nariz, se assim desejar, alterando as caracter\u00edsticas originais do rosto (algo que n\u00e3o acontece com os exerc\u00edcios, massagens e ferramentas). Os exerc\u00edcios contribuem para trazer um aspecto mais jovem ao rosto e real\u00e7ar a beleza j\u00e1 existente de cada indiv\u00edduo\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mat\u00e9ria publicada originalmente no <a href=\"https:\/\/almapreta.com\/sessao\/cotidiano\/videos-no-youtube-dao-dicas-de-como-afinar-o-nariz-especialistas-apontam-racismo\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/almapreta.com\/sessao\/cotidiano\/videos-no-youtube-dao-dicas-de-como-afinar-o-nariz-especialistas-apontam-racismo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">site do Alma Preta<\/a>. Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Youtube<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, o processo de coloniza\u00e7\u00e3o foi o grande respons\u00e1vel por configurar um imagin\u00e1rio coletivo em que os tra\u00e7os negros eram menosprezados e usados at\u00e9 como justificativa para a escraviza\u00e7\u00e3o. A partir do come\u00e7o do s\u00e9culo 20, estrat\u00e9gias de embranquecimento foram uma pol\u00edtica de Estado apoiadas por pseudoci\u00eancias, como a eugenia, que visava \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da negritude. As marcas desse processo de tentativa de embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira se mostram presentes ainda hoje. S\u00e3o v\u00e1rios os exemplos de filtros, dicas e interven\u00e7\u00f5es, encontrados na internet, que &#8216;suavizam&#8217; caracter\u00edsticas f\u00edsicas que fujam do par\u00e2metro euroc\u00eantrico de beleza. Isso \u00e9 inclusive revelado em buscas pela internet e no Youtube, principalmente, onde n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar dicas e sugest\u00f5es de como afinar o nariz, por exemplo. Existem diversos v\u00eddeos com milhares de visualiza\u00e7\u00f5es e centenas de coment\u00e1rios em que t\u00e9cnicas para diminuir o formato das narinas sem cirurgias s\u00e3o ensinadas. Segundo especialistas, a exist\u00eancia desse tipo de conte\u00fado \u00e9 o reflexo atual de uma sociedade que ainda considera as caracter\u00edsticas fenot\u00edpicas negras feias e refor\u00e7a o branqueamento desses tra\u00e7os. Entre as t\u00e9cnicas ensinadas, para al\u00e9m da maquiagem, h\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o de pregador de roupa ou de gelo diretamente no nariz. Em muitos v\u00eddeos encontrados na plataforma, as pessoas testam uma ferramenta chamada \u2018Nose Up\u2019, que pode se assemelhar a um pregador de roupas e ser encontrada at\u00e9 por R$5 em sites de e-commerce. Nos coment\u00e1rios dos v\u00eddeos, \u00e9 poss\u00edvel ler relatos que apontam como o nariz mais largo \u00e9 visto com preconceito dentro da fam\u00edlia e coment\u00e1rios depreciativos para as pessoas que tem essas caracter\u00edsticas. 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